segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Entrevista com Senhora Izadora Barbieri - Sobre Feminicídio.

 

Advogada Sra. Izadora Barbieri.
Senhora Izadora concedeu sua fotografia.


Olá, Galerinha!

É com grande satisfação que o Diário da Professora Vanessa recebe hoje a presença da Dra. Izadora Barbieri, advogada dedicada à defesa dos direitos das mulheres e ao fortalecimento da justiça social. Com ampla experiência na área jurídica e reconhecida atuação em casos de violência de gênero, Izadora traz uma reflexão necessária e urgente sobre o tema do feminicídio.

Sua participação neste espaço é um convite à conscientização e ao diálogo, destacando não apenas os aspectos legais, mas também o impacto humano e social dessa grave violação de direitos. Através de sua fala, buscamos ampliar o entendimento sobre a importância da prevenção, da denúncia e da construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Entrevista:

Sobre a frase do seu site: 

“Me comprometi a resgatar mulheres de situações de violência com um trabalho especializado feito por mulheres e para mulheres.”

Essa frase nasce de uma convicção muito profunda: mulheres precisam ser ouvidas sem julgamento.

Muitas vezes, além da violência, elas ainda enfrentam culpa, vergonha e questionamentos sobre suas próprias escolhas. E isso é extremamente injusto. O que aconteceu na nossa trajetória não define quem somos. Sempre é tempo de reconstruir a vida com mais segurança, consciência e dignidade.

Quando eu digo que é um trabalho feito por mulheres e para mulheres, estou falando de acolhimento real, escuta qualificada e compreensão das nuances emocionais, sociais e jurídicas que envolvem a violência de gênero. Nós pautamos nossa atuação nesse auxílio prático e estratégico para que mulheres rompam o ciclo da violência e retomem suas vidas com autonomia. Todas as mulheres merecem ser felizes. E merecem viver sem medo.


1. O que é feminicídio?

Feminicídio é o assassinato de uma mulher em razão do seu gênero.

Não é apenas “um homicídio contra mulher”, mas um crime motivado por violência doméstica, menosprezo ou discriminação à condição feminina.

É a expressão mais extrema da violência de gênero.


2. Quais são as principais leis que tratam do feminicídio?

Recentemente, a Lei 14.994/2024 trouxe uma mudança importante: o feminicídio deixou de ser apenas uma qualificadora do crime de homicídio e passou a ser um crime autônomo no Código Penal. Antes, ele era uma circunstância que aumentava a pena dentro do homicídio. Agora, tem tipificação própria, o que reforça a gravidade do crime e a necessidade de tratamento específico pelo sistema de justiça. Isso demonstra um avanço legislativo importante no reconhecimento da violência de gênero como fenômeno próprio.


3. A legislação atual é suficiente?

Eu não acredito que leis, por si só, resolvam o problema. A lei é um instrumento civilizatório, um balizador de condutas. Ela coíbe, pune e estabelece limites. Mas a raiz da violência está na mentalidade. Sem transformação cultural, educação de base e disposição real da sociedade para rever padrões estruturais, não haverá mudança profunda. Precisamos de investimento sério em educação emocional, igualdade de gênero e políticas públicas estruturais. A lei é necessária. Mas não é suficiente.


4. Quais fatores sociais e culturais contribuem para o feminicídio?

A própria construção social baseada no machismo estrutural. Vivemos em uma sociedade que historicamente subjugou mulheres, naturalizou controle, posse e inferiorização. A mentalidade discriminatória ainda é muito presente, inclusive de forma sutil. Quando a mulher decide romper, sair da relação, exercer autonomia, isso muitas vezes desencadeia reações violentas em homens que foram socializados para acreditar que têm poder sobre ela. Isso é estrutural. E precisa ser enfrentado como tal.


5. Quais medidas preventivas são mais eficazes?

Primeiro: conscientização massiva. Segundo: políticas públicas de acolhimento, especialmente para mulheres que dependem financeiramente do agressor. Muitas permanecem na violência por falta de alternativa econômica. É essencial uma atuação conjunta entre sociedade civil, governo, iniciativa privada e instituições. O Protocolo “Não é Não” (lei 14.786/2023), por exemplo, é uma medida relevante. Ele estabelece diretrizes para prevenir e combater assédio e violência contra mulheres em ambientes de entretenimento e eventos, criando responsabilidade para estabelecimentos e promovendo orientação sobre como agir diante de situações de violência. Além disso: Melhorar a comunicação nas relações; Criar espaços seguros de escuta; Ampliar campanhas educativas; Levar informação clara sobre os tipos de violência (física, psicológica, patrimonial, moral e sexual). Muitas mulheres vivem violência sem saber que aquilo é crime. Informação salva vidas.


6. Como o fortalecimento da rede de apoio impacta na proteção?

Impacta diretamente. Delegacias especializadas oferecem atendimento mais humanizado e técnico.

Casas de acolhimento salvam vidas — especialmente para mulheres que não podem retornar para casa porque correm risco real de morte. Mas é fundamental treinamento contínuo de agentes públicos. A revitimização institucional ainda é um problema sério. A mulher não pode ser violentada novamente pelo próprio sistema que deveria protegê-la. Campanhas educativas ampliam consciência social e ajudam a romper o silêncio. A rede precisa funcionar como um sistema integrado, não como estruturas isoladas.


7. O feminicídio está relacionado apenas ao sexo biológico feminino?

O feminicídio está relacionado à condição de gênero. Mulheres cisgênero e mulheres trans podem ser vítimas de feminicídio quando o crime ocorre por menosprezo ou discriminação à identidade feminina. O que caracteriza o feminicídio é a motivação baseada na condição de ser mulher, não apenas o sexo biológico.


8. Quais os maiores desafios no sistema de justiça?

O sistema criminal é altamente sobrecarregado porque existe um alto volume de processos, déficit de pessoal, falta de capacitação específica em muitos casos, morosidade nas investigações, falhas procedimentais que podem gerar nulidades processuais. E ainda enfrentamos a misoginia estrutural que atravessa instituições. Quando a investigação não é feita com técnica adequada, isso pode comprometer todo o processo. Precisamos de mais estrutura, mais qualificação e mais prioridade real para esses casos.

9. A Lei Maria da Penha é importante no combate ao feminicídio?

Sem dúvida. A Lei Maria da Penha é um marco civilizatório e uma das legislações mais completas do mundo em proteção às mulheres. Ela prevê medidas protetivas de urgência que salvam vidas. Ainda que existam casos trágicos mesmo com medida concedida, inúmeras mortes são evitadas graças a esse instrumento. O desafio não é a lei em si — é a efetividade prática de toda a estrutura que ela exige.


10. Que mensagem a senhora deixaria para quem vive violência e tem medo de denunciar?

Primeiro: sua segurança vem antes de tudo. Fortaleça sua rede de apoio. Procure familiares, amigos, casas de acolhimento. Vá para um local onde o agressor não tenha acesso nem conhecimento do endereço. Busque apoio psicológico — o CAPS da sua cidade pode oferecer atendimento gratuito. Recomendo também o Mapa do Acolhimento (https://www.mapadoacolhimento.org/), que conecta mulheres a apoio jurídico e psicológico voluntário. Quando estiver em segurança, denuncie. Solicite medidas protetivas. Busque assessoria jurídica especializada.

Você tem direitos.

Você não está sozinha.

E a violência não é culpa sua.

Romper o ciclo é difícil, mas é possível. E sua vida vale muito mais do que qualquer relação abusiva.







Telefone: 11  95344-2598

E-mail: contato@meloebarbieri.com.br 

 Agradecimento.

Gostaria de expressar minha sincera gratidão à senhora Izadora Barbieri pela valiosa colaboração no blog Diário da Professora Vanessa, abordando o tema tão relevante e urgente do Feminicídio.

Sua participação trouxe esclarecimentos importantes e contribuiu para ampliar a reflexão sobre esse crime que atinge tantas mulheres em nossa sociedade. Agradeço pela atenção dedicada, pela sensibilidade e pelo respeito demonstrado ao tratar de um assunto tão delicado e necessário.

A presença da senhora Izadora enriqueceu nosso espaço de diálogo e aprendizado, fortalecendo a missão do blog de promover conhecimento e conscientização sobre temas fundamentais para a justiça e para a vida em comunidade.


Professora Blogueira Vanessa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá! Deixe aqui seu comentário. No Diário da Professora Vanessa você pode deixar sua dica, sugestão, comentário e muito maissss!!

Postagem em Destaque.

Entrevista com Senhora Izadora Barbieri - Sobre Feminicídio.

  Advogada Sra. Izadora Barbieri. Senhora Izadora concedeu sua fotografia. Olá, Galerinha! É com grande satisfação que o Diário da Professor...

Postagens mais visualizadas nos últimos 30 dias.