quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Entrevista com a Senhora Mônica Doyle - "Traumas."

Senhora Mônica Doyle.
Terapeuta Psicodinâmica.
Senhora Mônica concedeu sua foto.

Olá, Galerinha!

Tudo joia com vocês?

É com grande alegria que recebemos hoje, no Blog Diário da Professora Vanessa, a senhora Mônica Doyle, uma profissional dedicada e reconhecida por sua trajetória inspiradora.

Mônica Doyle irá abordar um tema de extrema relevância e sensibilidade: “Traumas”. Sua experiência e conhecimento oferecem reflexões profundas sobre como compreender, acolher e transformar situações que marcam nossas vidas.

Com sua fala, ela nos convida a enxergar os traumas não apenas como feridas, mas também como oportunidades de aprendizado e superação.

Prepare-se para uma conversa enriquecedora, que certamente trará novas perspectivas e contribuirá para o nosso crescimento pessoal e profissional.

Primeiramente, gostaria de convidar a senhora Mônica a se apresentar para a nossa galera, falando um pouco sobre sua formação acadêmica e sua linha de trabalho.

Olá, foi um prazer receber esse convite. Meu nome é Mônica Doyle. Sou terapeuta psicodinâmica com foco na elaboração e reprogramação traumática. Para isso uso a abordagem psicodinâmica, que remete à dinâmicas remotas da infância e como elas afetam a vida e relacionamentos no presente, e também abordagens modernas como EDMR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares ou Bilaterais) ou IFS (Sistemas da Família Interna).


1. Como a vergonha pode se manifestar em crianças e adolescentes após um trauma?
 

Traumas infantis costumam trazer dois sentimentos que se confundem: a vergonha e a culpa. Embora pareçam semelhantes, elas são distintas. Enquanto a culpa faz com que a criança sinta que fez algo errado, a vergonha sugere que ela é errada. O que se faz de errado pode ser reparado, mas o "sentir-se errado" é mais profundo e impacta diretamente a autoimagem.

Os sinais manifestam-se de formas diferentes conforme a idade:

Crianças pré-escolares: Podem apresentar regressões, como voltar a usar chupeta, fazer xixi na cama ou chorar excessivamente. Podem demonstrar medo repentino de estranhos (ou até de familiares), recusar-se a brincar em grupo ou criar amigos invisíveis para lidar com a sensação de serem "diferentes".

Idade escolar: A criança pode recorrer a mentiras para evitar erros, reagir com choro ou raiva a correções de pais e professores, e tentar se tornar "invisível" para evitar julgamentos.

Adolescência: As manifestações se intensificam. Alguns tornam-se desafiadores e buscam companhias duvidosas por acreditarem que são "errados", o que justifica andarem com pessoas "erradas". Outros fazem o oposto: usam o perfeccionismo como defesa, sendo implacáveis consigo mesmos. Se os adultos reforçam essa pressão, o jovem só se sente valorizado pelo que performa, e não por quem é.

Nesta fase, podem surgir hábitos nocivos (álcool/fumo) para anestesiar a dor, além de riscos de automutilação, transtornos alimentares e ideação suicida. O apoio terapêutico é essencial para que o adolescente elabore o evento de forma adaptativa.



2. Quais são os sinais de que a vergonha está impactando a autoestima?

Para ilustrar: imagine um jovem que tira uma nota baixa. Um jovem com desenvolvimento saudável pensaria: "Poxa, fui mal, preciso estudar mais para a recuperação".

Já um jovem com histórico de trauma pode pensar: "Não é surpresa, eu sou burro mesmo. Meus pais têm razão, não presto para nada". No primeiro caso, há uma lição contextual; no segundo, há uma confirmação de um "eu quebrado".

Os sinais mais comuns são: ansiedade, vitimização, apatia, isolamento, agressividade e comportamentos autodestrutivos.


3. De que forma os pais podem ajudar os filhos a lidar com a vergonha?

Os pais são os organizadores do caos psíquico. O trauma não é o evento em si, mas como a criança o organiza e supera. Uma criança que passa por um evento doloroso sem se traumatizar severamente geralmente teve adultos que ofereceram amor, escuta e validação. A criança não consegue processar o trauma sozinha; ela precisa desse suporte externo, de um adulto ou um terapeuta.


4. A raiva é sempre negativa ou pode ter um aspecto positivo na cura?

A raiva é uma emoção humana essencial para a autoproteção. Ela não é ruim por si só, mas precisa ser validada e canalizada. Ela pode ser liberada através de exercícios físicos, práticas somáticas (como sacudir o corpo ou fechar os punhos) ou atividades criativas (escrita e pintura). A raiva também pode ser um combustível poderoso para mudanças benéficas, funcionando como um impulso para a superação.


5. Como diferenciar a raiva saudável daquela que prejudica a família?

A raiva saudável funciona como um "guarda-costas" ou um escudo. O problema não é o sentimento, mas a sua manifestação. Se a raiva é contínua, gera explosões constantes, rupturas e desejo de vingança, ela se tornou disfuncional e requer acompanhamento terapêutico ou psiquiátrico.


6. Estratégias práticas para controlar explosões de raiva?

Exemplo: Pais que resolvem conflitos de forma saudável ensinam os filhos a regular a própria "temperatura" emocional.

Comunicação: Use frases como: "Estou com raiva agora e não posso conversar. Vamos dar um tempo e voltamos a falar mais tarde".

Regulação Física: Lavar o rosto com água fria ajuda a "esfriar" a emoção.

CNV: Se as explosões forem frequentes, fazer um mini curso de Comunicação Não Violenta em família pode ser transformador.

7. Por que a culpa é tão comum em casos de trauma?

Crianças veem os adultos como seres poderosos e dependem deles para sobreviver. Quando um adulto viola essa confiança, é "menos doloroso" para a criança acreditar que ela fez algo errado do que aceitar que quem deveria amá-la é perigoso. A culpa traz uma ilusão de controle: "se eu me comportar, o abuso para". Com o tempo, essa passividade aumenta a vergonha, e essa dinâmica pode persistir até a vida adulta.

8. Como a culpa afeta o desenvolvimento emocional?

A culpa constante cria um sentimento crônico de inadequação. A criança pode se tornar hipervigilante, desconfiada ou isolada. No ambiente social, pode se tornar o "bode expiatório" da turma ou aceitar bullying calada, por acreditar que merece aquele tratamento. Se a criança não confia nos adultos ao seu redor, vai silenciar tudo isso dentro de si, se fechando para relacionamentos e travando seu desenvolvimento emocional.


9. Como evitar que os filhos se responsabilizem pelo que não é culpa deles?

Os pais devem separar o fato da identidade da criança. É preciso reforçar que o ocorrido não a define. Ajude-a a nomear o que sente e coloque o evento em contexto. O amparo profissional de um psicólogo infantil é fundamental. Por fim, foque nas virtudes e pontos fortes da criança, garantindo que ela saiba que é amada por quem é.

10. Como trabalhar a "Tríade do Trauma" (Vergonha, Raiva e Culpa)?

Esses sentimentos surgiram como mecanismos de defesa em momentos difíceis. Práticas de meditação e atenção plena ajudam a observar essas emoções sem ser dominado por elas.

Sugestão de Meditação:

Respire fundo e visualize a Vergonha, a Raiva ou a Culpa como partes cansadas que tentam proteger você. Diga mentalmente: "Eu vejo vocês e agradeço por tentarem cuidar de mim, mas agora peço um pouco de espaço para respirar". Sinta essas emoções recuarem como ondas, abrindo espaço para a sua essência sábia e compassiva, que permanece intacta apesar de tudo.

Para finalizar, a senhora poderia deixar uma mensagem especial para a galerinha?

"Aos pais e cuidadores, minha mensagem final é: vocês não precisam ser perfeitos, precisam ser presentes. Criar filhos após um trauma é um desafio que exige coragem, mas lembrem-se de que o amor e a escuta ativa são a 'cola' que reconstrói a identidade de uma criança ou adolescente.

Muitas vezes, por trás de um comportamento rebelde, de uma mentira ou do isolamento, existe apenas uma necessidade profunda de amparo. O trauma não define quem seu filho é; ele é apenas algo que aconteceu na história dele. Por isso, protejam essa fase com a verdade e o afeto: ajudem-nos a entender, todos os dias, que a culpa nunca foi deles.

Quando um filho se sente verdadeiramente visto e compreendido em sua dor, a vergonha perde o poder. Não tenham medo de buscar ajuda profissional e de falar sobre sentimentos difíceis. Vocês são o porto seguro onde a cura começa e a voz que diz: 'eu acredito em você e estou aqui'. Lembrem-se sempre: o trauma acontece no isolamento, o oposto do isolamento é a conexão."


Site:

Instagram:

Telefone: 
(48) 998121276.


Gostaria de expressar minha profunda gratidão à senhora Mônica Doyle por ter participado do Blog Diário da Professora Vanessa e por compartilhar conosco reflexões tão valiosas sobre o tema “Traumas”.

Sua contribuição trouxe conhecimento, sensibilidade e inspiração, ajudando-nos a compreender melhor um assunto tão importante para a vida pessoal e profissional. Foi uma honra contar com sua presença e aprender com sua experiência.

Em nome de todos os leitores, deixo registrado nosso sincero agradecimento e o desejo de que possamos ter outras oportunidades de diálogo e aprendizado juntos.

Professora Blogueira Vanessa.

2 comentários:

  1. Nossa... que matéria boa de se ler!! Ótimo conteúdo para guiar todas as pessoas independente de serem pais ou não. Mas, como um guia para cuidar das pessoas das quais se tem acesso.

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    Respostas
    1. Agradeço pelos comentários, pela matéria que nos guia e por ressignificar nossos pensamentos. Muito obrigada!

      Excluir

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